“Pieces of a Woman” explora a tradição e a modernidade na forma de lidar com o luto

“Pieces of a Woman” explora a tradição e a modernidade na forma de lidar com o luto

Fé e o reparo do corpo e da mentalidade são intenções comum no “cinema de luto”, conceito traduzido livremente criado por Richard Armstrong em sua tese/livro “Mourning Films: A Critical Study of Loss and Grieving in Cinema”. O estudo da perda, do luto e das passagens de vida que buscam adaptar-se a um momento de tragédia é um traço narrativo presente na filmografia de Kornél Mundruczó, estreando na língua inglesa com “Pieces of a Woman”, disponível na Netflix.

Os primeiros 30 minutos criam um cenário claustrofóbico e sensível. A câmera perambulante de Kornél Mundruczó encontra-se a todo momento com os sentimentos que Vanessa Kirby imprime a sua personagem, Martha. A mise-en-scène aflora toda a construção de um cenário milagroso e romântico, que termina fúnebre e desolador no quadro preto que apresenta o título do filme. O luto do primeiro ato, a morte e o fim da mãe por inteiro.

Porém arrisco dizer que também é o sinal prestativo de luto dos próximos dois atos, que parecem se confundir em meio ao argumento principal. Claro que a narrativa foca na situação do relacionamento das personagens de Vanessa e Shia LaBeouf, isolados e separados por um luto que ainda não fora concebido. Entretanto, a concepção das relações humanas ganha um contorno sintético ao longo do filme. A representação da passagem do tempo através dos frames estáticos na ponte que Sean ajudara a construir, remete a uma gramática simbólica: aos poucos, Martha se isola de todos para poder conectar-se a si mesma e recuperar um pedaço que perdeu.

O conceito de “perda” ganha um astro moral logo depois do primeiro ato, onde há um processo jurídico contra a parteira Eve (Molly Parker), por ter indiretamente ocasionada a morte da pré-matura bebê Yvette. Essa atribuição de responsabilidade bate levemente no conflito ciência (modernidade) x religião (tradição), pela mãe de Martha, Elizabeth (Ellen Burstyn), pendenciando a desavenças e conflitos na família Weiss, externando Sean a um ser isolado e sozinho. A personagem de Shia aos poucos vai literalmente sumindo, até não ser mais necessária ao escopo narrativo da obra.

A atuação de Vanessa Kirby impressiona, ela consegue reunir uma proposta mais autêntica à decupação e à linha temporal, deixando sua personagem naturalmente recorrer aos desabafos para ser ouvida. Mesmo que a direção cumpra o papel de expô-la a um “quadro de Oscar”. No entanto, não remove a justificativa do merecimento.

A inserção mais ativa na direção resulta em filme com ótimo início, localizado em uma condução de tempo-espaço nas imagens prumada e sensível. No entanto, “Pieces of a Woman” se perde por não conseguir encontrar pontos focais para esmiuçar os sentimentos de luto e consternação das relações entre Martha, Sean e Elizabeth. As adições de casos extra-conjugais como “arquétipos” de uma perda de identidade ficam também dispersos e acomodados.

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