Quatro mulheres entre 20 homens: Conheça as diretoras que concorrem a Palma de Ouro no Festival de Cannes

Quatro mulheres entre 20 homens: Conheça as diretoras que concorrem a Palma de Ouro no Festival de Cannes

Após o cancelamento da edição de 2020, o Festival de Cannes está de volta. O festival de cinema mais importante do mundo volta em 2021 prometendo oferecer a melhor seleção de filmes do ano. Acostumado acontecer em maio, o evento foi adiado devido a pandemia da Covid-19, e agora os seus 12 tradicionais dias recheados de exibições regressam para a alegria dos fãs de cinema. Essa 74ª edição tem como missão, ajudar o setor a se recuperar do golpe desferido pela pandemia global.

Dito isso, ao todo temos 24 longas-metragens selecionados na competição principal, entre eles, “The French Dispatch“, de Wes Anderson; “Benedetta“, de Paul Verhoeven; “Everything Went Fine“, de François Ozon e entre outros. O curioso que entre esses 24 longas em competição principal, apenas quatro são dirigidos por mulheres, são eles: “Bergman Island“, de Mia Hansen-Løve; “Titane“, de Julia Ducournau; “The Story of My Wife“, de Ildikó Enyedi e “La Fracture“, de Catherine Corsini. É fato quê, desde que o movimento #MeToo ganhou forças, mulheres obtiveram mais espaços em festivais e principalmente em premiações. Cannes sabe da sua importância, e tem um histórico de disponibilizar espaço para novos diretores e agregar cineastas do sexo feminino no seu line-up. Mas os números  ainda são baixos.

A última vez que tivemos quatro mulheres disputando a Palma de Ouro foi recente, 2019, naquela ocasião foram elas: Mati Diop, Jessica Hausner, Céline Sciamma e Justine Triet. Antes disso, outra vez que tivemos quatro mulheres disputando, foi em 2011, com o mesmo número de concorrentes, 4 (quatro), pouco não é mesmo? Levando em consideração que o evento não ocorreu no último ano, podemos dizer que ter o mesmo número de diretoras concorrendo em edições consecutivas é ótimo, mas fica aqui o questionamento: Por que o número nunca ultrapassa de quatro? Vamos acreditar que seja uma mera coincidência. Outro dado curioso é que desde o início dos anos 2000, nenhum filme dirigido por mulher conseguiu vencer a Palma de Ouro. A primeira e última vez que uma mulher conquistou Cannes foi em 1993, com a neozelandesa Jane Campion, por “O Piano”.

“Fomos o primeiro festival a assinar um compromisso de igualdade de gênero. Quanto à seleção oficial, não levamos em consideração sexo, raça, religião. Olhamos para o filme. Quando temos dúvidas entre dois filmes e um deles é dirigido por uma mulher, pegamos o dirigido por uma mulher”, afirmou o diretor do festival, Thierry Fremaux, à Variety. Porém, essa fala do Fremaux é contraditória, já que na edição de 2012 não teve uma mulher na a mostra principal, 900 diretoras e atrizes escreveram uma carta para o próprio e sua resposta, de forma irônica e grosseira, foi a seguinte: “Elas (as mulheres) vão para Cannes mostrar seus sapatos, enquanto os homens exibem seus filmes”.

Pontuada todas essas questões, vamos falar um pouco sobre as quatro cineastas presentes nessa edição de 2021.


Catherine Corsini (“La Fracture”)

Corsini é uma cineasta francesa de 64 anos, ela está em atividade desde de 1982, quando lançou seu primeiro projeto, um curta-metragem de onze minutos nomeado como “La Mésange”. Alguns de seus trabalhos chegaram ao Brasil, “Partir” (2009), depois desse, dirigiu outros dramas também lançados no país, como “3 mundos” (2012), “Um belo verão” (2015) e “Um amor impossível” (2018). Agora a diretora e roteirista chega a 74ª edição de Cannes com “La Fracture”, que conta a história de Raf (Valéria Bruni Tedeschi) e Julie (Marina Foïs), um casal prestes a se separar, encontram-se em um pronto-socorro perto da asfixia na noite de um grande protesto de ‘coletes amarelos’ em Paris. O encontro com Yann (Pio Marmaï), um manifestante ferido e furioso, vai destruir suas certezas e preconceitos. Lá fora, a tensão aumenta e logo o hospital fecha as portas e a equipe fica sobrecarregada. A noite vai ser longa…

“La Fracture”, de Catherine Corsini

Julia Ducournau (“Titane”)

Mais jovem entre as quatro cineastas, Ducournau, de 37 anos foi destaque na Semana da Crítica, mostra paralela de Cannes, em 2016, com o seu primeiro trabalho, “Raw”. O longa é sobre uma jovem estudante de medicina veterinária criada como vegetariana que se envolve com canibalismo. Graças a esse projeto, a francesa saiu com o prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema. Antes de produzir seu segundo trabalho, ela dirigiu dois episódios da série de terror “Servant”, projeto pertencente a M. Night Shyamalan para a Apple+. Pelo o que parece o gênero de terror continua a ser explorado pela diretora, pelo menos é o que aparenta do trailer do seu novo filme, “Titane”, que começa com agentes da alfândega detendo um jovem com o rosto machucado no aeroporto. Este afirma que seu nome é Adrien Legrand, que havia desaparecido uma década antes, quando criança. É o fim de um pesadelo para seu pai, Vincent, que o leva para casa. Só que, simultaneamente, uma série de assassinatos horríveis começa a ocorrer na mesma região.

“Titane”, de Julia Ducournau

Ildikó Enyedi (“The Story of My Wife”)

Antes de 2017, a cineasta húngara estava a 18 anos sem fazer um filme, não que tivesse parado de trabalhar, mas há quatro anos atrás ela voltou ao mercado com tudo. Seu filme “Corpo e Alma” foi um sucesso no Festival de Berlim no qual rendeu um Urso de Ouro, o drama amoroso sobre um casal que se encontra através dos sonhos fez tanto sucesso que conseguiu uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro naquele ano. Ildikó já conquistou o prêmio Caméra d’Or (para primeiros filmes) dentro de Cannes por “O meu século XX”, além disso ela passou cinco anos (2012-2017) trabalhando na televisão local. Dirigiu os 39 episódios da série “Terápia”, uma versão húngara para o sucesso internacional “Em terapia”, da HBO.

“The Story of My Wife”, longa que ela leva para Cannes esse ano é estrelado por Léa Seydoux e Louis Garrel, tem roteiro adaptado pela própria cineasta a partir do romance homônimo do escritor Milán Füst. O roteiro traz como personagem central um capitão da Marinha húngara que relembra a história de seu infeliz casamento com uma francesa. A relação só se concretizou por causa de uma aposta: um amigo desafiou o capitão a se casar com a primeira mulher que entrasse no café em que os dois estavam sentados.

“The Story of My Wife”, de Ildikó Enyedi

Mia Hansen-Love (“Bergman Island”)

Se serve de consolo para nós brasileiros, “Bergman Island”, da diretora francesa Mia Hansen-Love, é a única participação do Brasil na competição oficial de Cannes, já que a RT Features, de Rodrigo Teixeira, é a coprodutora do longa. Hansen-Love, de 40 anos tem sua trajetória ligada à do cineasta conterrâneo Olivier Assayas. Aos 18 anos, Mia Hansen-Love debutou como atriz em “Fin août, début septembre” (1998), de Assayas. Dois anos mais tarde, atuou também em “Os destinos sentimentais”, do mesmo diretor. Foram suas duas únicas participações como atriz. Ela estreou na direção em 2007 com “Tout est pardonné”. Dois anos mais tarde, ela já garante o prêmio especial do júri na mostra Um Certo Olhar, em Cannes, com o filme “O Pai dos Meus Filhos”. Sua característica é de produzir dramas pessoais e está acostumada em levar seus projetos para festivais: “Adeus, primeiro amor” (2011), “Eden” (2014) e “O que está por vir” (2016), que lhe deu o Urso de Prata de direção em Berlim.

“Bergman Island” é protagonizado por Mia Wasikowska, Tim Roth e Vicky Krieps, A produção é ambientado durante um verão, quando um casal de cineastas vai para a ilha sueca de Fårö, onde o lendário diretor Ingmar Bergman viveu. À medida que seus respectivos roteiros avançam, os limites entre ficção e realidade se confundem, separando o casal.

“Bergman Island”, de Mia Hansen-Love

Vale lembrar que esse pequeno artigo é sobre ‘filmes dirigidos por mulheres competindo pela Palma de Ouro’. Sabemos que mesmo não sendo tratadas como prioridades, mulheres possuem feitos importantes dentro do Festival de Cannes, como Agnès Varda, que em 2015, foi a primeira mulher a receber a Palma de Ouro Honorária pelo conjunto da obra no Festival de Cannes. Em 1961, a diretora russa, Yuliya Solntseva foi a primeira mulher a receber a Palma de Ouro de Melhor de Direção, pelo seu filme “A Epopéia dos Anos de Fogo“. Já Leyna Bloom, aos 29 anos, a modelo e atriz se tornou a primeira mulher transgênero negra a ter um papel de protagonista em um filme da competição oficial do festival. O seu debute nas telas com “Port Autority“, drama da diretora Danielle Lessovitz, trouxe para a competição de 2019 a discussão sobre representatividade LGBTQ+.

Expondo mais dados, em 2018 foram três filmes dirigidos por mulheres entre 21 concorrentes; em 2017, três entre 19; em 2016, três entre 20; em 2015, dois entre 19. A baixa regularidade entre diretoras se mantem, sendo que é uma pena ser uma quantidade tão pequena. A edição do festival que possuir cinco filmes de cineastas femininas, por mais que ainda seja um número pequeno, já podemos considerar como um marco importante na história do Festival de Cannes por conta desses números inexpressíveis.

A diretoria de Cannes poderia se inspirar no Festival de Sundance. Em 2019 segundo a organização do evento, 42% dos projetos selecionados foram dirigidos por mulheres. Nessa edição do festival americano todos os quatro troféus entregues pelo o júri foram para filmes dirigidos por mulheres. Não queremos que Cannes deixem os homens de lado e que seja um evento dominado apenas por mulheres, mas acreditamos que pode existir uma igualdade entre ambos os sexos para que ambos e principalmente o sexo feminino perpetue dentro da arte, e assim possamos tratar como naturalidade quando uma mulher vença qualquer prêmio, principalmente o mais importante, o Oscar.

A 74ª edição do Festival de Cannes começou no último dia 06/07 (terça-feira) e vai até o dia 17/07. O Cineasta brasileiro, Kleber Mendonça Filho integra o júri presidido por Spike Lee. Apoie o olhar feminino dentro do cinema.

ARTIGOS RELACIONADOS