“Querido Evan Hansen” é um drama musical que tenta ser descontraído ao falar de saúde mental

“Querido Evan Hansen” é um drama musical que tenta ser descontraído ao falar de saúde mental

Provavelmente saúde mental é a pauta que foi mais discutida nos últimos anos, principalmente em 2020 e 2021. Com o estouro da pandemia do Covid-19 pessoas que eram consideradas fortes, como atletas olímpicos, mostraram suas fragilidades e revelaram para o mundo que são humanos como qualquer ser. O audiovisual abriu suas portas para abordar o tema, o documentário “The Weight of Gold” (2021), de Brett Rapkin é um no meio de tantos exemplos que temos de materiais que falam sobre o assunto de forma primordial, o diretor norte-americano, Stephen Chbosky resolveu se aventurar no tema e agregou o gênero musical para debater sobre saúde mental em seu novo longa, “Querido Evan Hansen“.

Conhecemos Evan Hansen (Ben Platt) indo para o seu primeiro dia do último ano do ensino médio. Ele está com o braço engessado e escreve uma carta para si mesmo (uma atividade passada pelo seu terapeuta) explicando por que terá um bom dia. Horas mais tarde no mesmo dia, enquanto escrevia uma nova versão da carta, desta vez  falando sobre sua paixão Zoe (Kaitlyn Dever), o irmão dela, Connor (Colton Ryan) insiste em assinar seu gesso “para que ambos possamos fingir ter amigos”. O que parece o início de uma nova amizade, quase termina em agressão quando o instável Connor ler o nome de sua irmã sendo citado na carta de Evan. Connor foi embora com a carta enfurecido e logo depois descobrimos que ele morre por suicídio, seus pais Cynthia (Amy Adams) e Larry (Danny Pino) acabam ​interpretando a carta de maneira errada, que começa com “Caro Evan Hansen”, como uma nota de suicídio escrita para Evan. Evan ser ver mãos atadas, o que começa como uma pequena mentira para pais que estão de luto se transforma em um caso massivo e quase sem saída.

Stephen Chbosky, com o seu “Querido Evan Hansen” tenta e por vezes até consegue transmitir ideias para serem discutidas em seu filme. Ele e o roteiro escrito por Steven Levenson acertam no momento que a  produção faz criticas quando a sociedade quer discursar sobre o falecimento de alguém que nem conhece, isso acontece diversas vezes na projeção tomando proporções imensas. Connor é um personagem que possui transtornos mentais que acaba o transformando em alguém agressivo, logo ele é marginalizado por outros estudantes da sua escola e até mesmo por membros da sua família, isso faz ele ser excluído da sociedade. Já Evan, o protagonista, também sofre dos “mesmos” transtornos, a única diferença que ele não é um ser agressivo, mas de qualquer forma também é um ser excluído que se sente solitário.

É impossível simpatizar com Evan por contas das suas atitudes. Depois do mal entendido sobre a carta, o protagonista se ver obrigado a sustentar sua mentira para a família do Connor dizendo que era o único amigo próximo dele, apenas para confortar o luto de uma família, principalmente de uma mãe. Mas isso tem consequências e a mentira vai se tornando cada vez mais extensa. Desde então todas as pessoas que não davam atenção para o protagonista, começam se solidarizar da falsa dor e dessa maneira ele consegue ser notado. Essa é a maior irresponsabilidade da produção dirigida por Chbosky, com o suicídio e dor da perda não se “brinca”. Vale lembrar que “Querido Evan Hansen” é uma adaptação de um musical da Broadway e me questiono se a peça tem esse enredo tão problemático.

O filme tenta explorar ainda mais aquelas pessoas que possuem problemas ocultos de saúde mental através da Alana (Amandla Stenberg), uma moça que está envolvida com qualquer tipo de atividade escolar. Talvez aqui seja o ápice da película, já que nesse momento, Alana canta para Evan uma canção sobre pessoas que possuem os mesmos problemas que eles, mas que não aparentam ter, se lembra do primeiro paragrafo do texto falando sobre atletas olímpicos? eles se encaixam nessa música. Sem dúvidas é o momento mais profundo do longa.

A projeção nunca se preocupou em dizer o que exatamente aconteceu com Connor em seu último dia. O diretor está ocupado explorando a morte de um jovem para o crescimento pessoal de outras pessoas, para ser mais direto, do protagonista. Em determinado momento vemos Evan viralizando na internet através de um discurso/canção, em seguida uma enxurrada de usuários postam sobre o tema, isso deveria ser utilizado de maneira mais inteligente como uma sátira para criticar a falsa conexão que esses movimentos representam, mas acaba sendo utilizado para criar um clima mais emotivo.

Apesar das mentiras do Evan criar uma antipatia entre público e produção, podemos extrair coisas boas daqui. Platt através de sua voz consegue expelir algum tipo de emoção em cenas cantadas. No entanto, essas poucos devaneios de boa qualidade não podem se sobrepor das deficiências. Julianne Moore, apesar do pouco tempo de tela, ela é Heidi, a mãe solteira do Evan, que é enfermeira e seu trabalho a obriga ficar ausente por muitas horas. Existe um contraste feio quando o assunto se trata das duas mães. Heidi é a mãe trabalhadora e Cynthia é a mãe que fica em casa e através de uma linguagem mais visual, demonstra que existe algum tipo de negligência ser uma mãe que trabalha.

Particularmente falando, a maneira que “Querido Evan Hansen” trata saúde mental é problemático por tudo que foi discutido aqui. Acredito que alguém consiga enxergar pontos positivos e sair satisfeito com o resultado final dessa produção. Stephen Chbosky que dirigiu filmes como “Extraordinário” (2017) e “As Vantagens de Ser Invisível” (2012) que são projetos com temas tão delicados quanto o desse filme tem a  sua pior versão como cineasta. Caso queira assistir algum conteúdo que fale sobre saúde mental e temas mais delicados de maneira mais descontraída, assista “Bo Burnham: Inside“.

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