“Caminhos da Memória”, de Lisa Joy discute sobre o excesso de nostalgia na humanidade

“Caminhos da Memória”, de Lisa Joy discute sobre o excesso de nostalgia na humanidade

A memória pode ser considerada como um tesouro para o ser humano. Algumas vezes um tesouro bastante precioso que no caso seria às boas recordações graças ao poder da nostalgia, e ao mesmo tempo um tesouro nada prazeroso, como nós sabemos é impossível possuir apenas memórias positivas ao longo da vida. Dentro disso, “Caminhos da Memória” (Reminiscence), da debutante em longas-metragens Lisa Joy tenta nos mostrar em seu sci-fi que lembranças do passado podem ser traiçoeiras e que bem ou mal utilizadas existem consequências, principalmente quando se trata da trama do seu primeiro filme.

Nick Bannister (Hugh Jackman) é um investigador da mente das pessoas, ele possui uma máquina que oferece a oportunidade de reviver momentos importantes da vida. Quando ele conhece e se apaixona pela misteriosa Mae (Rebecca Ferguson), que desaparece depois de um tempo, ele fica obcecado no passado vivido com ela e se afunda nas próprias recordações para entender o que ocorreu. Além disso, a cidade de Miami encontra-se inundada pelo mar (um pouco semelhante a Veneza), transformando um ambiente distópico que oferece um clima noir para esse thriller/ficção científica.

Lisa, por meio desse enredo aborda que somos apegados ao passado e a importância de viver intensamente. “Caminhos da Memória” mostra o peso de se olhar para o quê já vivemos e não para o presente ou então futuro. Fica claro como a cineasta pontua isso para gente: seja através de um cadeirante querendo reviver seus momentos quando podia andar, através de uma mulher querendo sentir o toque do seu amor já falecido ou até mesmo por intermédio de Nick. Com a ajuda da edição de Mark Yoshikawa, nos primeiros 15 ou 20 minutos de projeção somos surpreendidos que toda introdução que assistimos fazia parte da nostalgia vivida pelo o protagonista, então, quando nos deparamos com ele pela primeira vez na linha temporal oficial do longa, notamos que o personagem já está viciado em tentar descobrir o motivo que foi abandonado pela sua amada e sua aparência física deixa isso bem claro.

Os trabalhos recentes de Fergunson como “Missão Impossível” e “Doutor Sono” credencia a atriz para um projeto como este, e graças a sua Mae, ela consegue despertar um sentimento de incerteza no público, justamente por interpretar alguém com objetivos desconhecidos capaz de confundir Bannister e a nós que assistimos, já que em algum momento a encontramos em uma sala rodeada de criminosos ou atrás de um microfone cantando de maneira tão inofensiva. Literalmente ela é o mistério que ronda o filme.

Apesar da obsessão de Nick para investigar o que aconteceu com Mae, o roteiro escrito pela própria diretora é vago no quesito para desenvolver o romance vivido pelos os dois. Tudo que presenciamos deles são através de pequenos flashbacks, que não faz a gente se importar com os sentimentos de Bannister, e o que desejamos para o protagonista é que ele se convença que perdeu a mulher dos seus sonhos e toque sua vida adiante e encontre um novo amor, que poderia ser até sua companheira de trabalho, Watts (Thandiwe Newton). Mas o roteiro insiste na busca por Mae que acaba se tornando tão repetitivo que parece uma brincadeira de “Onde Está Wally?”.

Jackman está bem em seu papel. Ele consegue ser verdadeiro ao demostrar a angústia de um homem comum e também consegue nos convencer que a obsessão vivida pelo seu personagem também seja nossa, assim ficamos curiosos pelo o desfecho da trama por causa da boa atuação de Hugh, não pela repetição do roteiro. Porém, onde ator se destaca mesmo é na narração brega em que filmes noir possuem. Sua voz imponente graças ao timbre que possui nos narra passo a passo aquilo que acontece diante do nossos olhos. Isso até seria um ponto negativo para “Caminhos da Memória“, mas Jackman é tão bom nisso que ele merece um trabalho de leitor de audiobook.

O mistério desenvolvido por Lisa Joy consegue se diversificar, apesar do filme de fato ser um “enigma”, no decorrer dele somos agraciados com poucas e boas cenas de ação. É empolgante quando Jackman e outro personagem se enfrentam em uma sequência de luta por diferentes cenários até chegar numa sala de concertos submersa. É legal como a diretora utiliza a água e os significados que esse elemento assume dentro do roteiro, seja na máquina de pensamentos, nos diferentes locais da cidade inundados se tornando um elemento importante para a película.

Às duas horas e meia de “Caminhos da Memória” talvez seja díficil de ser digerido por qualquer um por conta do ritmo arrastado, mas é muito bem vindo por saber que a Warner Bros investe e acredita em um projeto novo dirigido por uma diretora estreante. Lisa Joy tropeça feio em alguns pontos em “Caminhos da Memória“, porém ao mesmo tempo ela se mostra promissora para orquestrar grandes projetos e através do nome dela podemos aguardar histórias de ficção científica impressionantes para o fã do gênero.

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