“Respiro”: Scalene explora sua brasilidade em nova fase

Em seus 10 anos de carreira, a brasiliense Scalene já experimentou de tudo um pouco. Esta habilidade de se permitir a novas experiências e possibilidades é algo que sempre ficou muito claro ao que a banda desejou projetar em seus trabalhos. Tendo isso em mente, “Respiro“, novo e quarto álbum de estúdio do grupo, não só projeta como é definitivamente uma de suas obras mais completas nesse sentido. Reavendo sua brasilidade e abusando – da melhor forma possível – dos elementos da Bossa Nova, o quarteto se reafirma na cena musical trazendo de forma bonita e intimista a essência de uma Scalene intrinsecamente coerente ao seu som e ao seu papel como resistência em tempos tão difíceis.

Gerado como reação aos tempos inflamados em que estamos submersos, “Respiro”, soa como uma espécie de trégua diante do descontrole cotidiano. Diferente de “magnetite“, lançado em 2017, o sucessor procura o espaço entre as melodias para de forma menos carregada – mas não menos dura – impor uma reflexão a este período social de tanta tensão. A esperança empregada em letras como a de “Tabuleiro“, é um claro exemplo disso! “Sempre aos poucos, devagar / Sem atalho pra chegar lá / Pra todo o bem, vai ter o mal”, canta no refrão o vocalista Gustavo Bertoni

A aparente paz aplicada em faixas como “Assombra“, “Furta-Cor” e “Ilha no Céu” nos engana. Funcionando como uma armadilha, as composições movimentam-se lentamente aos ouvidos mais atentos, causando uma sensação de afinidade com as narrativas humanas destas canções. Essa viagem sentimental cheio de altos e baixos, determina ao ouvinte uma experiência cheia de profundidade. O caráter existencialista presente aqui não é bobo, materializando de forma madura o que há muito tempo o grupo vem buscando. 

As ótimas “Sabe o que foi?” e “O Que É Será” soam como um retorno as raízes do grupo, trazendo um clima nostálgico a um disco que nos remete tanto a saudade do que já se passou. Já “Ciclo Senil” – faixa mais pop deste registro – em sua primeira versão se iniciava com um violão, assim como quase tudo nesse álbum, entretanto frente as suas diversas alterações, a composição tomou um rumo bem diferente. Segundo o vocalista Gustavo Bertoni, talvez essa sonoridade seja um spoiler de onde a Scalene pode estar no próximo disco. A letra segue com as reflexões da banda sobre o conservadorismo, a intolerância e cegueira que assola nosso país.

Com uma ótima costura entre instrumental e letras, a banda Scalene continua a transitar muito bem entre os estilos musicais. Sempre com um pé no post-rock, acompanhamos nesse registro uma incorporação de arranjos oriundos do trip-hop, r&b e até eletrônico, tudo isso somado a levada brasileira bem mais presente neste disco. O projeto vem repleto de participações especiais, como Xenia França, Hamilton de Holanda, Beto Mejia e a surpreendente colaboração com Ney Matogrosso na poderosa “Esse Berro esse Grito“. Com a interpretação que já e de praxe de Ney, a canção entrega uma estranheza que foi muito elogiada pelo artista. Quando ouviu a faixa finalizada para aprovar sua participação, o cantor foi direto: “Gosto muito. Estranho“. Ao ser questionado se haveria alguma observação ele disse: “Não. É disso que eu gosto“.

Respiro” propõe à sua maneira uma delicada imersão a nossa realidade, construindo dentro disso uma investigação profunda sobre a nossa sociedade como um todo.  Com veemência em cantar sobre os inúmeros obstáculos que temos em nossas vidas, a banda brasiliense começa a traçar um momento ainda mais consciente para sua carreira, tendo como grande plataforma a sua música.  


Flávia Denise

Jornalista & Music nerd. ;)

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