Sem grandes novidades, “O Grito” se torna um acidente de percurso na carreira de Nicolas Pesce

Sem grandes novidades, “O Grito” se torna um acidente de percurso na carreira de Nicolas Pesce

A franquia japonesa, “O Grito” ganhou notoriedade lá atrás, em 2002, quando sua primeira versão, dirigida por Takashi Shimizu acabou se tornando um sucesso mundial. Sabendo disso, a industria americana decidiu criar sua própria versão dois anos depois, chamando o próprio Shimizu para dirigir. Há quem diga que o “O Grito” é um sucesso absoluto, porém, há quem discorde. 2009 foi o ano no qual a franquia teve sua última versão, passado todo esse tempo, em pleno 2020 ela ressurge com Nicolas Pesce, um cineasta com uma carreira promissora dentro do gênero de terror.

A produção apresenta a detetive Fiona Landers (Andrea Riserborough) e seu parceiro atormentado Goodman (Demián Richir), uma dupla de corretores de imóveis casados (Jhon Cho e Betty Gilpin), uma mulher mais velha que se encontra mentalmente doente (Lin Shaye), e seu marido (Frankie Faison). Nesta narrativa, uma estranha casa na rua Reyburn, número 44 que possui uma história terrível de assassinato, acaba se tornando o motivo que ocasionará a reunião de todos estes personagens.

A trama parece ser simples, de fato ela é, porém ela se torna complexa no momento em que sua linha do tempo revela que todas as histórias dos personagens descritos no paragrafo acima aconteceram em épocas diferentes. Isso não seria nenhum problema, se elas fossem apresentadas uma de cada vez. No entanto, a montagem de “O Grito” se torna problemática no momento em que uma história é continuamente interrompida pela outra, cortando sempre o clímax do que vai acontecer, e de sobra acaba colocando para baixo a única coisa que tem de melhor no filme, os atores.

John Cho vindo de trabalhos interessantes como “Buscando” (2018) e “Columbus” (2017) merecia um tempo maior de tela e quem sabe até mesmo um real protagonismo. Porém, a dupla Riseborough e Richir dão conta do recado. Inclusive, os primeiros minutos da projeção se parecem mais com uma nova temporada de True Detective do que qualquer outra coisa! Fica a dica para HBO caso ela esteja pensando em um novo ano para série e não saiba quem escalar para os papeis principais.

A princípio a ideia de ter o nome de Nicolas para dirigir essa continuação/remake de “O Grito” foi excelente. Ele é um cineasta que tem uma boa percepção de cinema, oferecendo ao gênero de horror uma modernidade, “Os Olhos de Minha Mãe” (2015) e “Piercing” (2018) são uma prova disso. Além disso, essa terceira projeção de Pesce conta com um elenco bastante interessante. Todo esse pacote serviu para me fisgar e dá uma oportunidade para o longa.

Pesce desfila com a sua capacidade de criar e sustentar o clima de tensão nas preliminares daqueles momentos em que um filme de terror mais apavora, e assim, podemos dizer que as melhores partes de “O Grito” se resumem a isso. Essa atmosfera perturbadora acaba naquele susto telegrafado que já estamos cansados de saber que eles estão presente em um filme de terror. Infelizmente não há muito o que o diretor possa fazer para salvar essa nova versão.

“O Grito” é um produto tipicamente maçante onde nada é uma novidade para quem o assiste. O cineasta conta novamente com a ajuda do diretor de fotografia Zachary Geller para pintar os quadros polidos da franquia acrescentando um tom amarelado e sombrio. Nicolas não achou uma maneira de superar os elementos que os antigos filmes nos ofereceram no passado. Com isso, vemos cenas repetidas, como a famosa sequência da mão aparecendo na cabeça de um personagem enquanto toma banho.

Como franquia, “O Grito” já nos ofereceu tudo o que tinha, cabe os donos dos direitos pararem de querer produzir algo “novo”. Enquanto a Nicolas Pesce, para ele, essa sua terceira projeção ecoa como um compromisso obrigatório que teve durante o dia. Tristemente a projeção queima a reputação de um diretor em crescimento que deveria estar sendo aproveitado em projetos mais ambiciosos.


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