Suk Suk – Um Amor em Segredo e o desabrochar do tempo e da comunidade

Suk Suk – Um Amor em Segredo e o desabrochar do tempo e da comunidade

É interessante observar filmes que tenham como olhar narrativo o desabrochar “tardio”. Em aspas pois essa condição de tempo é tênue, mas delimitada e imposta pelo convívio em sociedade. Suk Suk – Um Amor em Segredo observa a história de dois homens idosos, Park (Tai-Bo) e Hoi (Ben Yuen), que nutrem uma relação amorosa. Mas o diretor, Ray Yeung, entende que há subtextos sociais importantes a serem cumpridos na sua história e, por isso, investiga estes pontos.

Em primeira tratativa, observamos a vida do taxista Park, um homem sexagenário que vive com a esposa e recebe visitas da filha e do noivo, prestes a se casarem. Para dar o primeiro passo no conflito da narrativa, aqui Ray decide basear-se na hierarquia patriarcal, além também do estabelecimento social do relacionamento heteronormativo. A esposa se irrita pelo fato do noivo não conseguir arcar com as despesas da festa do casamento, o que já determina esse espaço minimamente desconfortável para a pessoa de Park. Não é exatamente um casamento infeliz que ele possui com a esposa, mas sim, um descontentamento com essa clandestinidade natural de sua orientação sexual.

A ida aos banheiros masculinos para olhar os corpos e pênis dos homens é uma das primeiras interações que o cineasta insere no filme, para traçar esse panorama comunitário. Destas interações públicas reservadas, Park conhece Hoi, um homem que aparenta ser mais novo e diferente. Tanto que no primeiro diálogo, a casualidade do relacionamento e do sexo tida como parte natural dessa comunidade por Park, deixa Hoi inseguro, fazendo com que este último sugira a criação de uma amizade primeiramente.

A personagem de Hoi possui também um subtexto próprio; viúvo, mora com o filho, a esposa e a neta em um apartamento menor. O sentimento entre pai e filho fica fragilizado pelos conflitos na criação da pequena Grace, mas sobretudo, pelo cristianismo no qual o filho é adepto e presente nas solenidades eucarísticas. Suk Suk – Um Amor em Segredo orienta sua narrativa primariamente nesses pontos para tratar da invisibilidade da comunidade, até que ela aparece com mais autonomia e clareza.

As idas de Park e Hoi às saunas e casas de massagem frequentadas pela comunidade LGBTQIA+ soam até ritualísticas, um roteiro turístico libertário e libertino, apesar do filme ter uma expressividade sexual quase nula, mesmo atenuando as demonstrações de afetos entre o casal. O filme se situa também em grande parte na retomada/criação de espaços públicos pela comunidade – e o envolvimento das esferas políticas e sociais – onde por elas se teriam a liberdade e, cada vez mais, a naturalidade dessas relações.

A escolha narrativa é, no entanto, dialogar com esse relacionamento no campo do tempo. Do tempo histórico, conta-se sobre Hong Kong e o pertencimento público da comunidade LGBTQIA +. Pelo tempo físico, os homens mais velhos desse grupo depondo sobre como esse sentimento de autonomia foi sendo podado também, seja por falta de iniciativas do setor público ou do isolamento auto imposto por si mesmos.

Contextualmente, Suk Suk – Um Amor em Segredo é um filme de semblantes, de uma passagem do tempo que foi sendo desperdiçada em sua maioria, mas que agora é aproveitada por uma entrega que também é circunstancial, mas que o dispositivo da emoção se equivale na mesma medida.

Suk Suk – Um Amor em Segredo estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 09/09.

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