“Telefone Preto”, de Scott Derrickson é uma mistura de terror e suspense bem sucedida

“Telefone Preto”, de Scott Derrickson é uma mistura de terror e suspense bem sucedida

Provavelmente você já deve ter visto um punhado de filmes que falam sobre sequestro de crianças, essa temática consegue se encaixar em diversos gêneros, se formos para ação é possível citar “Chamas da Vingança” (2004), “O Código” (2012) e “Resgate” (2020), partindo para o drama conseguimos lembrar de “Medo da Verdade” (2007), “Assunto de Família” (2018) e o peruano “Canção sem Nome” (2019). O terror também possui suas películas nessa vertente, mas aqui vamos falar de uma totalmente nova. Baseado em um conto de Joe Hill, o cineasta Scott Derrickson nos proporciona “Telefone Preto“, que possui alguns elementos de terror, porém flerta mais com o suspense, mas nem por isso devemos subestimar esse novo filme de Derrickson, já que ele é capaz de render alguns sustos.

Finney Shaw (“Mason Thames”), é um garoto de 13 anos tímido, inteligente e acanhado, ele é sequestrado por um assassino sádico e preso em um porão à prova de som, onde gritar é de pouca utilidade. Quando um telefone desconectado na parede começa a tocar, Finney descobre que pode ouvir as vozes das vítimas anteriores do assassino. Eles estão determinados a garantir que o que aconteceu com eles não aconteça com Finney.

Sem enrolações, essa é a premissa mais direta de “Telefone Preto”, de Derrickson. Todo o longa-metragem do cineasta americano é efetivo naquilo que se propõe a fazer. A cena de abertura vai de contrapartida de tudo que vamos ver no decorrer da projeção. Ambientando no Norte de Denver em 1978, nos deparamos com um clima de filme de férias de verão americano, crianças estão jogando beisebol em um campo; o rebatedor rebate um home run e é enaltecido pelos os colegas, depois do jogo ele volta de bicicleta para casa e então um van preta vira a esquina e todo o clima festivo some. O filme transmite o período em que nós eramos crianças e nossas mães nos falava para termos cuidado e não falarmos com estranho. Todos os moradores daquela região estão aterrorizados com o sequestrador em série que a mídia apelidou de “The Grabber”, no qual já fez quatro vítimas e contando.

Por trás de Finney, existe sua irmã Gwen (Madeline McGraw), que possui possui o dom de ter visões através dos seus sonhos (como sua falecida mãe), esses sonhos mostram coisas sobre as crianças desperecidas no qual ela usa para ajudar os investigadores a encontrar irmão. Como já foi dito antes, “Telefone Preto” não permite embromação quando o assunto é o desenvolvimento da trama, nós vemos o sequestrador cedo, ele se disfarça como mágico e atrai suas vítimas para a van, e as trancam em um porão e diz coisas como “eu nunca vou fazer nada que você não goste”, interpretado por Ethan Hawke que evidentemente se diverte sendo um vilão. Além desse do visual que faz lembrar personagens de outros filmes devido a máscara,  The Grabber é um personagem sem muitas informações, em certos momentos chega ser até vazio por não apresentar suas motivações, isso é capaz de dividir opiniões sobre ele ser um bom personagem ou não.

Mason Thames se sai bem ao entregar o papel de um menino medroso e acanhado, em um certo momento um amigo diz a ele que “uma hora você vai ter que se defender”, quando esse momento chega, é notável como o ator consegue se sair bem nas duas personalidades, tanto a do medroso e a do corajoso, já  Madeleine McGraw pode ser considerada como um grande nome para o futuro, a menina é carismática e consegue desenvolver uma dramatização convincente, ainda mais quando está sendo surrada por um pai alcoólatra. No geral, todo o núcleo infantil do filme consegue desempenhar boas atuações. Entretanto, o filme se tornar melhor quando mostra como essas duas crianças se apoiam, o relacionamento deles é bem trabalhado e desenvolvido.

Como não estamos assistindo um filme do Lars von Trier, não vemos crianças sendo mortas em “Telefone Preto”, mas quando elas surgem como “fantasmas”, elas aparecem mutiladas, algo que particularmente não me agradou, entretendo, por mais que não tenha assassinato de menores de idade na tela, quando o cineasta decide derramar sangue, ele não economiza e torna esse seu trabalho bastante visceral. Nesse momento de se autoglorificar, existe uma leve referência visual a outro filme que Derrickson dirigiu, ‘O Exorcismo de Emily Rose’, contar o momento que isso acontece estragaria a experiência.

Em “Telefone Preto” Derrickson cria um clima com imagens não tão assustadoras, tem momentos que ele recorre ao jump scare para te tirar alguns sustos, e além disso sua câmera se move com precisão. Existe uma mescla entre terror e suspense, o terror é bem mediano, pouco causa pânico, mas os elementos são bem utilizados quando decidem aparecer. O melhor de tudo é o desfecho final da história e como Scott Derrickson foi corajoso ao colocar um final que se resume a uma atitude agressiva partindo de um personagem tão inocente. Por coincidência ou não, Darrickson nasceu em Denver e teria a mesma idade do seu protagonista em 78. A muito para se admirar em “Telefone Preto” já que ele não descarta nenhum dos elementos apresentados durante os seus 103 minutos de duração. Sem dúvida o filme é a ilustração perfeita de fazer o básico mas de maneira eficiente.

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