TIFF 2021: Crítica | Medusa

TIFF 2021: Crítica | Medusa

Costumo dizer que o gênero do horror no cinema brasileiro não deve nada a nenhum país, pela qualidade narrativa e também pela inventividade dentro da carpintaria que é proporcionada; várias veias e ensaios podem ser expostos neste gênero e a proto-distopia evangélica do Brasil é o fio de “Medusa”, novo longa-metragem de Anita Rocha da Silveira.

A relação da mulher com a religião já tinha sido tema da cineasta carioca no ótimo “Mate-me Por Favor”, onde o sagrado feminino é intimamente ligado à eucaristia, ao culto e ao domínio da igreja sobre a vida e, neste “Medusa”, no corpo da mulher. Aqui vemos a vida de Mariana (Mari Oliveira), uma jovem na casa dos 20 anos que faz parte não só da igreja (em um modelo cristão-protestante), como também do coral, ao lado da melhor amiga Michele (Lara Tremouroux).

Entretanto, o universo distópico teo-punk surge quando logo na primeira cena, vimos que Mariana, Michele e todas as meninas do coral saem às ruas para vigiar, perseguir, agredir e “converter” outras mulheres tidas como mundanas, que fogem às regras da Igreja e da ordem artificial sobre a vida da mulher. As humilhações e conversões são filmadas e publicadas nas redes sociais, em uma espécie de conto digital da inquisição. Se nós temos algumas plataformas de interação online voltadas aos nichos conservadores/fascistas, aqui isso seria meio que uma normalidade.

A normalidade é exposta no culto do pastor Guilherme (Thiago Fragoso), que diz que a Igreja esperou muito tempo para ter ações na política brasileira. Anita então abre a narrativa para conversar abertamente sobre o atual governo Bolsonaro e a aliança com líderes religiosos, principalmente das igrejas alinhadas às ideologias conservadoras e preconceituosas.

O horror supracitado ganha contornos nas cenas de perseguição primeiramente; noturnas, escuras, mas contrastadas pelas fortes cores em tons neon e pela trilha sonora de sintetizadores, remetendo às clássicas assinaturas do subgênero italiano Giallo. O espaço físico também monta o suspense ao investigar parques e florestas como ambiente hostil às mulheres. A agressão à vida da mulher partindo da própria (orientada pela dominação patriarcal histórica da Igreja) já é, por si, assustadora. Uma caça às bruxas patrocinada pelo esvaziamento da consciência de gênero.

A lascividade, tão combatida pela Igreja Católica na Idade Média e que seguiu por séculos ao longo da história inquisidora e colonizadora, é o ponto de inclinação ao título do longa-metragem, já que Medusa ao perder a castidade, foi amaldiçoada pela tutora Atena; os cabelos cor de bronze se tornaram cobras (o ser místico que corrompeu a inocência de Eva no Jardim do Éden) e o rosto sedutor logo se tornou o calvário de sua maldição, quem olhasse para ela, se tornaria pedra. Logo, não demorou para a fúria de Medusa surgir.

E logo o controle da Igreja para manter a ordem patriarcal aparece nos Vigilantes de Sião, um “exército” criado com o intuito de policiar o comportamento masculino, garantindo o ideal da castidade e do subjugo à mulher independente; na pós-modernidade, incels de fóruns de internet que acometem o ódio viral.

Mas a fúria de Mariana aqui posterga um pouco. Após relembrar da história de Melissa (Bruna Linzmeyer), a portadora da liberdade sexual e autonomia feminina que fora queimada viva em um carnaval e, que após o incidente, teria sumido, a protagonista parte em busca de reencontrá-la. Mas para isso, precisa descer dos céus e ir ao terreno mundano.

Após sofrer uma agressão em uma de suas caçadas noturnas, Mariana possui uma cicatriz que desalinha o padrão de beleza da mulher cristã, por isso, perde o emprego em uma clínica de cirurgia estética. Aqui então, é a jornada de Medusa inferno abaixo (ou redenção acima); as violações de seu corpo e suas ideias irrompem a todo momento.

No mundo dos mundanos, Mariana decide trabalhar em uma clínica particular que cuida de pacientes em coma. Aqui Anita parece gostar do ambiente holístico e, alguns acenos ao “Cemitério do Esplendor”, de Apichatpong Weerasethakul. Porém, as interações de Mariana com essa superfície dizem mais sobre uma inversão do valor purgante. Não são as remissões do pecado, mas a observação sobre a vida perene, sobre a determinação de quem pode escolher o destino dos vivos.

O uso da sensibilidade sobre os enfermos ao lado do enfermeiro Lucas (Felipe Frazão) no entanto se insere em um ato mais frágil, que quase compromete o elo entre o motivo inicial da protagonista com o desfecho. O objetivo de encontrar Melissa, a bruxa queimada, é pedir desculpas? Então, nesse ponto que se converge o purgatório de Mariana, se arrepender do pecado de agredir às próprias irmãs e exponenciar a violência de gênero?

Pois tudo em Medusa é um relato do poder evangelizador. Não na mídia tradicional mais, em canais de TV fundados por líderes de igrejas, mas na internet, na influência digital do comportamento moral e cívico, ancorado na personagem de Michele, que também vai de rumo à sua redenção.

E por falar em redenção, é no catártico 3º ato que todas as consciências da opressão, punição e subjugo à mulher são materializadas pela narrativa mais combativa. As duas amigas e mais o coral todo rege o surto, o despertar em uma espécie de grito histórico. O desalento em descobrir que a Igreja não condena a violência que Michele sofre do namorado (que faz parte do grupo de jovens vigilantes), mas sim, as penaliza; que a relação política dissolve a sensação de idoneidade nas figuras admiráveis.

Ao som de Vaca Profana, cantada por Gal Costa, temos a música posta ao cargo de hino, pois na letra, as citações à Movida Madrilena – movimento contracultural dos anos 70 na Espanha pós-franquista, onde surgiu nomes como o cineasta Pedro Almodóvar que, por característica própria, tem na cerne narrativa o ensaio sobre… mulheres.

Então tudo é sobre a mulher no feminino e feminista Medusa. Sobre a violência de gênero guiada pela Igreja, é sobre o despertar furioso (mesmo que seja tardio), é sobre a queda do Jardim do Éden ou do Monte Olimpo. É sobre também o questionamento do preconceito pela história da mulher e o rompimento do brega pela história mundana.

A crítica de Medusa faz parte da cobertura Festival Internacional de Cinema de Toronto 2021 pelo Orbe Zero.

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