“Vida Selvagem”: Em sua estreia como diretor, Paul Dano mostra que os laços familiares não são eternos

Há atores que acompanhamos alguns de seus trabalhos e logo pensamos: Esse ator seria um bom diretor! Paul Dano é um exemplo. Dano já trabalhou com diretores renomados, como: Paul Thomas Anderson, Denis Villeneuve, Steve McQueen e Rian Johnson. Podemos imaginar que o jovem ator de 35 anos observou atenciosamente todos esses nomes trabalhando e decidiu pegar a melhor versão de cada um e virou um cineasta. O resultado é “Vida Selvagem“, um drama baseado em um romance escrito por Richard Ford.

Vida Selvagem” é contada pelos olhos do pré-adolescente Joe Brinson (Ed Oxenbould), filho de Jeanette (Carey Mulligan) e Jerry Brinson (Jake Gyllenhaal). Joe começa a presenciar o casamento de seus pais se dissolver diante dele. A relação entre seus pais começa estremecer após seu pai ser demitido.  Mesmo quando Jerry é convidado a retornar para o trabalho, ele recusa por conta do orgulho ferido, explica Jeanette para o seu jovem filho.

Desempregado, as coisas pioram de vez quando Jerry decide “abandonar” sua família para se juntar aos bombeiros para apagar um incêndio fora da cidade, em troca de pouco dinheiro. Essa decisão faz com quê Jeanette perca qualquer tipo de ligação que ela tenha com o marido. Depois disso a relação dos dois nunca mais foi a mesma.

Vida Selvagem” é exatamente isso, um drama sobre uma família que perde a fé em si mesmo. O pai que perde a motivação após sentir mais uma vez o desemprego, e a mãe que vai voltar a ter sua independência por conta do comodismo e ausência do seu marido. Enquanto isso acontece, o filho está vivendo no meio disso tudo, perguntando o quê vai ser deles após ver que todos os laços de sua família foram destruídos.

O pouco conhecido Ed Oxenbould é a chave para o filme, sua atuação no inicio é de garoto ingênuo e se transforma no final destabilizante para a trama. A personagem de Carey Mulligan é a representação da independência da mulher. Vivendo com o marido é notável o seu comportamento de dona de casa e suas roupas recatadas. Após a partida dele, ela se transforma em outra pessoa, um alguém mais ousado que utiliza roupas de cores vivas. Mulligan entrega seus diálogos perfeitamente. No quesito atuação, é um dos grandes destaques da temporada. Vamos aguardar para ver se ela é lembrada nas premiações.

Jake Gyllenhaal é aquilo que todos nós conhecemos. Ele é o que tem menos tempo de câmera. A ausência do seu personagem é real para todos, tanto para os outros personagens da trama e principalmente para quem assiste, porém, quando ele retorna, ele consegue adicionar mais uma parcela de drama ao filme: “Boy! Boy! Boy!”

Filmado por Diego García, diretor de fotografia que colaborou com o longa brasileiro “Boi Neon“, fica evidente o gosto de Paul Dano em cada plano. Ele prefere guiar suas cenas de forma mais lentas e simples, ao em vez de utilizar algo estilizado e frenético. Outro fator positivo para Dano é o aproveitamento do que está ao redor, ele não desperdiça nenhuma paisagem bonita que o estado de Montana oferece.

Mas calma, nem tudo é perfeito em “Vida Selvagem“, para quem dirige um filme pela primeira vez, Dano não iria passar batido por algum deslize. Há momentos que o filme chega ser frio além da conta que, nos faz sentir falta de alguma cena para quebrar todo aquele drama que os personagens estão vivendo. Faltou uma pequena parcela de alívio cômico que alguns filmes do gênero possuem. O roteiro co-escrito pelo o próprio Dano junto com Zoe Kazan claramente poderia levar essa culpa, mas esse é o único deslize que o casal comete.

Há uma cena onde Joe guia ela inteira. Ele manipula seus pais e ambos fazem o quê ele quer. Para eles tudo naquela momento é constrangedor, mas talvez, Paul Dano, através da atitude do garoto, queira nos mostrar que uma criança de 14 anos consegue ser mais maduro do quê muito adulto. O diretor cria um retrato impiedoso para essa família, onde o lado mais frágil dela sempre está entre o lado mais sujo, seja metaforicamente ou fisicamente.

Particularmente falando, se eu não soubesse, eu nem imaginaria que isso fosse uma estreia na direção. Para um primeiro filme, Dano se mostrou tão maduro quanto a um diretor com uma filmografia extensa. É bom ver que um ator que já nos entregou tantos trabalhos de alto nível, tenha entrado no ramo de diretor e conseguiu acertar a mão já no primeiro trabalho.

O modo que Dano ver o mundo diante da lente de uma câmera faz dele um talentoso cineasta que pode gerar mais produções de qualidade. “Vida Selvagem” foi um longa-metragem contido, sem ser uma produção extravagante. Com isso, podemos esperar o segundo filme de Paul Dano de braços abertos.


Marcus Barreto

Jornalista de bem com a vida, fã de esportes e cinema.